Vivenciamos o novo
fanatismo do século
Toda ideologia política tem três elementos: uma visão do
inferno com um inimigo que tem de ser esmagado; uma visão de um
mundo mais perfeito; e um plano de transição de um para o outro.
Os meios de transição geralmente envolvem a tomada e a
subsequente utilização total da ferramenta mais poderosa da
sociedade: o estado.
Por esta razão, a tendência das ideologias é serem
totalitárias. Eles dependem fundamentalmente de sobrepujar as
preferências e escolhas dos indivíduos e substituí-las por um
sistema de crenças e comportamentos planejado por algum comitê de
iluminados.
Um caso óbvio é o comunismo. O capitalismo é o inimigo.
Controlar os trabalhadores e abolir a propriedade privada seria o
paraíso. E os meios para se alcançar isso seriam a expropriação
violenta das posses da burguesia, com o assassinato dos resistentes.
O socialismo oferece uma versão mais suave do mesmo projeto: na
tradição
fabiana, você alcança estes mesmos objetivos por meio do
planejamento econômico gradual.
A ideologia do racismo postula algo diferente. O inferno seria a
integração étnica e a mistura de raças. O paraíso seria a
homogeneidade racial. E os meios de mudança são a marginalização
ou o genocídio de algumas raças.
O fascismo vê o livre comércio global, o individualismo e a
imigração como os inimigos, ao passo que um poderoso nacionalismo
seria o paraíso. E a maneira de se fazer a transição é tendo um
grande líder. Você pode observar as mesmas características em
certos tipos de tradicionalismo religioso teocrático.
Cada uma dessas ideologias vem com um foco intelectual principal,
algum tipo de estória projetada para chamar a atenção. Exploração.
Desigualdade. Teoria racial. Identidade nacional. Salvação. E cada
uma vem com sua própria linguagem para sinalizar o apego à
ideologia.
Praticamente todas as ideologias acima já são bem conhecidas e
já estão bem desgastadas. O mundo já tem muita experiência
prática com cada uma delas. É possível simplesmente recorrer à
história para observar os padrões, reconhecer seus apoiadores e
refutar suas teorias.
A nova ideologia totalitária
O ano de 2020 nos deu uma nova ideologia com tendências
totalitárias. Ela possui uma visão do inferno, do céu e um meio de
transição. Possui um aparato de linguagem único. Tem um foco
mental. Possui sistemas de sinalização para revelar e recrutar
adeptos.
Essa ideologia tornou-se mundialmente conhecida como "lockdown".
Podemos também adicionar o sufixo "ismo" à palavra:
lockdownismo.
Sua visão do inferno é uma sociedade na qual os patógenos
circulam livremente. Seu paraíso é uma sociedade controlada
inteiramente por tecnocratas médicos, cuja principal tarefa é a
supressão de todas as doenças. O foco mental são os vírus e
outras pragas. A antropologia é considerar todos os seres humanos
como pouco mais do que sacos recheados de patógenos mortais. As
pessoas suscetíveis à ideologia são as pessoas com vários graus
de misofobia —
outrora considerada um problema mental, mas que agora foi elevado à
condição de consciência social.
O ano de 2020 foi o primeiro teste do lockdownismo. Ele já chegou
impondo os controles
mais intrusivos, abrangentes e praticamente globais de seres humanos
na história registrada. Mesmo em países onde o Estado de Direito e
as liberdades individuais são fontes de orgulho nacional, as pessoas
foram colocadas em prisão domiciliar. Suas igrejas e empresas foram
fechadas. Milhões de empreendedores e trabalhadores foram humilhados
pelo estado, o qual, além de proibi-los de trabalhar, ainda afirmou
que suas atividades não eram essenciais para ninguém. A polícia
foi estimulada a impingir todos os decretos draconianos e a prender
dissidentes que oferecessem qualquer resistência.
A devastação é comparável a períodos de guerra, exceto pelo
fato de que foi uma guerra imposta pelo governo ao direito das
pessoas de se locomoverem e comercializarem livremente.
E o que é mais impressionante é que, depois de tudo isso, ainda
não foi apresentada uma mísera evidência empírica, de qualquer
lugar do mundo, de que esta política totalitária, estupefaciente e
sem precedentes teve algum efeito em controlar o vírus, para não
dizer em aniquilá-lo.
Ainda mais impressionante, os poucos locais que permaneceram
completamente abertos (Dakota do Sul, Suécia, Tanzânia,
Bielorrússia) não
perderam mais do que 0,06% da sua população para o vírus, em
contraste a locais como Nova York e Grã-Bretanha, que se fecharam
totalmente e apresentaram as mais altas taxas per capita de
mortalidade.
A mesma metodologia
Logo no início, a maioria das pessoas concordou, pensando que a
mediada era de alguma forma necessária e de curto prazo. Duas
semanas se estenderam para 30 dias, que se estenderam para 7 meses,
e agora somos informados de que nunca haverá um momento em que não
mais seremos obrigados a continuar professando essa nova fé de
política pública. Trata-se explicitamente de um novo totalitarismo.
E, como ocorre com todos esses regimes, há um conjunto de regras
para os governantes e outro distinto para os governados.
O aparato da linguagem agora é incrivelmente familiar:
achatamento da curva, desaceleração da disseminação,
distanciamento social, contenção em camadas direcionadas,
intervenção não-farmacêutica.
O inimigo é o vírus e qualquer pessoa que não esteja vivendo
sua vida de maneira exclusivamente voltada a evitar a contaminação.
Como você não pode ver o vírus, isso geralmente significa gerar
uma paranóia sobre O Outro: alguém diferente de você tem o vírus.
Qualquer um pode ser um super
disseminador, e você pode reconhecê-los por seu comportamento
desobediente e não-submisso.
Repentinamente, "especialistas" e autoridades ao redor
do mundo impuseram restrições sobre quem você pode receber em sua
casa, proibiram todos os eventos, aboliram as viagens, e até mesmo
atiçaram desconfiança
contra animais de estimação. Tudo isso levou ao efetivo
desmantelamento da rotina em todas as cidades, algo que ainda está
longe de se recuperar.
O novo puritanismo e o desprezo pelas consequências
A postura dos adeptos do lockdown almeja uma sociedade de volta ao
estado da natureza, com uma idílica purificação da vida. Essa
neurose com uma sociedade sem patógenos ajuda a explicar uma das
mais estranhas características do lockdownismo: seu puritanismo.
Observe que o lockdown atacou especialmente qualquer coisa que se
pareça com diversão: filmes, teatros, eventos culturais, esportes,
viagens, boliche, bares, restaurantes, hotéis, academias e clubes.
Ainda agora existem locais com toques de recolher para impedir as
pessoas de ficarem fora de casa até tarde — sem absolutamente
nenhuma justificativa médica.
Se uma atividade é divertida, ela vira um alvo.
Existe um elemento moral aqui. O pensamento é que, quanto mais as
pessoas estão se divertindo, quanto mais escolhas elas fazem por
conta própria, mais doenças (pecados) se espalham. Trata-se de uma
versão sanitária da ideologia religiosa de Savonarola,
que levou à Fogueira
das Vaidades.
O lockdownismo tem todos os elementos esperados. Tem um foco
maníaco em uma única preocupação — a presença de patógenos —,
com a exclusão de todas as demais preocupações. A menor das
preocupações é a liberdade humana. A segunda menor preocupação é
a liberdade de associação. A terceira menor preocupação são os
direitos de propriedade. Tudo isso deve se curvar à disciplina
tecnocrática dos mitigadores de doenças.
As constituições e os limites ao governo não importam. E
observe também quão pouco a terapêutica médica aparece. Não se
trata de fazer as pessoas melhorarem. Trata-se apenas de controlar
toda a vida.
E vale notar também que não se deu a mais mínima atenção para
as consequências não-premeditadas. A destruição de milhares
de pequenas empresas e empregos levou milhões
à depressão (com aumento substantivo no número
de overdoses e suicídios). As vidas de incontáveis milhões ao
redor do mundo foram despedaçadas. Em outras palavras, o lockdown
não apenas não alcança bons resultados em termos de saúde
pública, como, ao contrário, ele faz o oposto.
Isso nada mais é do que puro fanatismo, uma espécie de
insanidade forjada por uma visão selvagem de um mundo unidimensional
em que toda a vida é organizada em torno da prevenção de doenças.
Note-se, também, a ignorância (intencional) do fato de que
nossos organismos (por meio do sistema imunológico) evoluíram junto
com os vírus ao longo de um milhão de anos. Não há nenhum
reconhecimento dessa realidade, mesmo entre os "especialistas".
Ao contrário, o único objetivo é tornar o "distanciamento
social" o novo credo nacional.
O objetivo
Isso tem de ser dito mais claramente: o que tudo isso realmente
significa é a imposição da separação humana forçada. Significa
o desmantelamento de mercados, cidades, eventos esportivos
presenciais e o fim do seu direito de circular livremente.
Todo o argumento se baseia em um simples erro: a crença de que
mais contato humano dissemina mais doença e mortes. Em contraposição
a essa insanidade, a eminente epidemiologista de Oxford Sunetra Gupta
argumenta
que a globalização e mais contato humano amplificaram as imunidades
e tornaram a vida vastamente mais segura para todos.
Os defensores do lockdown foram surpreendentemente bem-sucedidos
em convencer as pessoas de seus pontos de vista malucos. Todo o
necessário é você acreditar que o único objetivo de todos na
sociedade é evitar o vírus. A partir daí, todas as implicações
se tornam explícitas. Antes que você perceba, você já se juntou a
um novo culto totalitário.
Para concluir
Os lockdowns estão cada vez menos parecidos com um gigantesco
erro e cada vez mais semelhantes a uma ideologia política fanática,
um experimento político que ataca frontalmente os postulados básicos
da civilização.
Já passou da hora de levarmos essa ideologia a sério e
combatê-la com o mesmo fervor com o qual indivíduos livres
resistiram a todas as outras ideologias maléficas que visavam a
destituir a humanidade de toda a sua dignidade, e a substituir as
liberdades individuais pelos terríveis sonhos de intelectuais e seus
fantoches empoleirados nos governos.
_//www.mises.org.br/article/3298/lockdown-a-nova-ideologia-totalitaria?