sábado, 31 de outubro de 2009

PRIVILÉGIO.



BUGANVÍLIAS
Certo dia em que passava pelos portões da UFMG para mais um dia de estudo, me dei conta da grande fronteira que atravessava. Para trás ficara todo o emaranhado caótico da cidade e seu zumbido cinzento. Ali só havia a calma verde das árvores, num contínuo que se perdia aos olhos. Obviamente havia também alunos apressados, carros insistindo em seu ronco invasivo e funcionários que buscavam se despir do sono. Nesse dia porém, escolhi ver o verde. Escolhi ouvir o silêncio se despertando no canto de pássaros inusitados. Escolhi transpor o tempo e me lembrar de um mundo que pouco conheci, mas de que sempre ouvi falar. 

Me mudei para Belo Horizonte ainda criança. Me lembro dos passeios com minha mãe pela cidade. Pegar ônibus, ir ao centro enfrentar aquele mundo de gente, entrar e sair de lojas em busca de um preço mais simpático. Olhar fixo no chão e nas pernas que se entrecruzavam, me desviava e, ao mesmo tempo, acompanhava o puxão firme no braço, conduzido pela marcha frenética de minha mãe. E então ouvia um grito. Assustada, procurava o motivo que a fizera parar. Assalto, esbarrão, pisada no pé talvez. Mas todas as vezes, e não foram poucas, percebia que seu olhar se havia desviado para outra direção. E em seguida ouvia: "Que maravilha está essa Castanheira!" ou "Aquela é uma Quaresmeira, minha filha, símbolo da cidade", e outras vezes "Olha que vontade de viver, a das plantas. As raízes quebram a calçada com sua força!" Fatos eram sempre acompanhados de nomes, que foram aos poucos acrescentados à minha lista: Flamboyant, Pata de Vaca, Acácia Japonesa, Buganvília, Orquídea, Violeta, Lírio, Boca-de-Lobo, Amor-Perfeito, Hortência...

Antes da mudança para a capital, a casa de minha avó materna era o próprio paraíso. Naquele lugar, onde eu e meus primos explorávamos cada centímetro do extenso terreno em nossas brincadeiras de aventura, minha mãe foi criada. Lá ouvimos várias histórias de moleques pulando os muros para pegar frutas nas diversas árvores do quintal. De como elas muitas vezes mataram a fome dos doze irmãos. De linhas e flores que se transformavam em coroas e colares. Histórias de enxertos, adubos e cuidados da terra, paixão de meu avô por suas plantinhas. E de sua coleção de madeiras mantida no porão, colhidas durante suas andanças pela cidade. Muitas vezes, furtivamente acabavam no fogão à lenha, gente demais pra alimentar. Descoberto o delito, inflamava-se meu avô. Rapidamente retirava seu tesouro do fogo, o apagando. "Isso é Pinho de Riga! Isso é Pinho de Riga!"

Hoje em dia é comum, quando estou com meus amigos, parar e dizer: "Como estão lindos esses Brincos de Princesa" e receber em troca olhos interrogativos. Se espantam pelos nomes que guardo. À sombra de uma árvore que se encontra em frente à faculdade, onde nos assentamos diariamente, folhas que caem nos cabelos ou formigas que transitam por nossas pernas se transformam em queixas. Num desses dias vi uma pequena Ameixeira que se encontra no mesmo local ser violentamente sacudida. Um homem buscava tirar proveito de seus frutos. E brutamente a importunava, derrubando vários deles no chão. Escolheu alguns, ignorou o resto. Desaprendemos a olhar.

No entanto, entrei no campus aquele dia e decidi não ver os prédios concretos e simétricos que se espalham em meio às copas. Prédios cheios de livros, livros cheios de nomes. Nomes dos quais fiz questão de me esquecer. Me ceguei para a o vagar acadêmico dos passantes, míopes, cheios da sede ortodoxa por termos cunhados em laboratórios, embebidos de importância asséptica.

Entrei no campus e me deixei envolver pela névoa que paira sobre a reserva ecológica bem cedinho de manhã, banhada pelos raios que se espreguiçam sobre aquele friozinho úmido. Reparei no passarinho incomum de cauda comprida, camuflado em meio aos galhos. Notei os gatinhos se enroscando pelos gramados, tranqüilos e livres, donos daquele território soberano. Deixei o rosa dos Ipês me inundarem de beleza. Acompanhei a leveza do Salgueiro a sombrear um banco de jardim. Lembrei-me dos nomes tão significativos que popularam minha pequena enciclopédia verde. E senti o real privilégio que há em adentrar aqueles portões diariamente.
Lívia Amaral Ladeira

BRINCOS -DE-PRINCESA
ÁRVORE E FLOR PATA DE VACA

FOLHA DA ÁRVORE PATA DE VACA
IPẼS EM BH
VIOLETA
AMOR PERFEITO

BOCA DE LEÃO

ACÁCIA JAPONESA
FLAMBOYAN
HORTÊNCIAS
AMOR-PERFEITO

ONZE HORAS
VIOLETA
QUARESMEIRA-SÍMBOLO DE BH
AMOR PERFEITO
ORQUÍDEAS


ORQUÍDEAS PLANTADAS POR MINHA MÃE EM BARBACENA
BUGANVILIAS

HISTÓRIA DE UM PORQUINHO.

Nossa casa, em Barbacena, ficava numa grande área com muita vegetação. Sempre tínhamos gatos, cachorros convivendo conosco. Meus pais criavam porcos para a nossa alimentação.

 Os víamos no chiqueiro, brincávamos com eles, jogávamos comida e quando chegava o dia do abate, ouvíamos apavorados, os seus gritos de dor. Mas, na panela, ao comê-los achávamos que a vida era assim mesmo porque não tínhamos nenhuma outra conscientização sobre o direito à vida que tem todo ser vivo.

 A religião dominante na época nunca esclareceu nada a esse respeito. Não tínhamos acesso a outras informações. Não havia ainda computador e não tínhamos televisão, por ser um luxo. E assim, as coisas caminhavam.

Um dia, apareceu um leitãozinho. Não me lembro o porquê dele ser mantido solto no quintal. Brincávamos e corríamos com ele. 

Quando íamos à vendinha buscar pão ou qualquer outro gênero alimentício, ele ia atrás, nos seguindo. Ficava, dentro de casa, e quando íamos para a cama, ele subia para dormir conosco.

 Nós cuidávamos dele como de um cão e ele se comportava como tal. Na nossa inocência de criança, aquilo era normal.

Numa manhã, mamãe foi preparar a comida do leitãozinho, deixou o fubá na bacia, e foi buscar a água para fazer a mistura. Nosso querido amiguinho, sempre muito guloso, foi comer o fubá seco e antes que pudéssemos o acudir, morreu entalado. Toda tentativa de salvá-lo foi em vão.

Sofremos, imensamente. Um animal admirável morrer de forma impensada.

 O comportamento daquele animal ficou na nossa memória. Ele nos demonstrava fidelidade, afeto, companheirismo e nós, ignorando tudo isto, certamente, mais tarde o comeríamos.

Passado muito tempo, minha filha, aos quinze anos, fazendo uma excursão do colégio na cidade de Bambuí, presenciando como os porcos são mortos, voltou arrasada e nunca mais comeu carne, tornando-se vegana: não come e não usa nada que traga sofrimento para os animais. Com seu exemplo,sua perseverança me tornei , também,vegetariana.

Agora, voluntária da Causa Animal, leio sobre vasta pesquisa de homens que já tinham o respeito e defendiam o direito à vida de todo ser vivente. Aprendo que nos Estados Unidos a primeira lei para proteger os animais data de 1866, já a lei para proteger as crianças data de 1873, portanto, posterior à dos animais.

Mesmo diante de toda a demonstração de fidelidade, inteligência e sensibilidade do porquinho, isso não nos impediria de comê-lo. Escondemo-nos atrás de duas palavras – Cultura e Tradição – para manter nosso comodismo.

Com todas as informações obtidas através dos avançados meios de comunicação, mesmo com questionamentos, depoimentos de filósofos, pensadores, cientistas, biólogos e religiosos, preferimos manter hábitos arraigados que são fomentados pelo alto poder de persuasão da indústria alimentícia nos incitando ao consumo exagerado de produtos animais. E mentem ao afirmar que não podemos viver sem a proteína animal.

Estamos sempre aprendendo este é um dos motivos de nossa existência. Não importa a idade, cada dia nos traz uma nova oportunidade .É preciso estar aberto mesmo que esta oportunidade de aprendizagem seja trazida pelo convívio com os animais.

“Os porcos são muitas vezes comparados a cães, por serem animais simpáticos, leais e inteligentes. Na verdade os porcos são ainda mais inteligentes do que os cães. Se tivessem oportunidade de o fazer, e se fossem bem tratados, conviveriam com gosto com os humanos, que lhes despertam tanta curiosidade.

 Estudos recentes de especialistas em psicologia e cognição animal mostraram que os porcos conseguem saber o que passa pela cabeça de outros porcos. Têm também grande autonomia, tomando as suas próprias decisões de modo a conseguirem alcançar os objetivos que pretendem. Animais admiráveis, os porcos sonham, reconhecem os seus nomes, gostam de ouvir música, de brincar com bolas e outros objetos, e, à semelhança dos humanos, gostam muito de receber massagem. ( www.gatoverde.com.br)

Graça Leal

MEU PATO DE ESTIMAÇÃO.


Um pato pode ter sentimentos? Leia o relato e julgue você mesmo.

Ouro Preto. Quanta história conta, nas suas ladeiras centenárias, nos casarões barrocos, nas Igrejas meio assombradas...

Era lá que eu morava quando ganhei um pato de presente. Coloquei-o num espaço telado no quintal de nossa casa. Do alto das escadarias, todos os dias, eu jogava-lhe comida e sempre conversava com ele. Com o tempo, com este contato direto ele emitia sons como se me respondendo enquanto eu conversava com ele e trocava sua água. E quando eu estava ao lado do telado, ele me seguia de um lado pro outro, emitindo estranhos sons.

Um dia, muito curiosa, abri o galinheiro e deixei-o sair. Ele me seguiu e ficou nos meus pés, como uma criança pedindo colo. Mais curiosa ainda, me agachei e para meu espanto e muita emoção, ele subiu no meu colo, e se pôs a me dar bicadinhas no rosto, como se estivesse me beijando. Daquele momento em diante, comecei a lhe dar mais atenção, achando tudo aquilo inacreditável.

Após seis anos em Ouro Preto, retornei a minha cidade, Barbacena. Não iria abandonar meu pato de estimação. Então, como fui morar em apartamento, deixei-o em casa de minha mãe, porque lá ele ficaria bem com inúmeras outras aves e num grande espaço.

Quando eu visitava minha mãe, ele vinha atrás de mim. Então eu brincava com ele, entrava pela porta da cozinha e saía pela porta da sala e ele atrás de mim. Não me deixava e queria ficar comigo.

Mas minha não presença diária foi deixando-o agressivo. Ele começou a correr atrás e bicar todos que chegavam, agindo como um cão bravo. Como minha mãe tinha erisipela na perna e qualquer arranhão acarretava dolorosas sequelas, ela e os meus irmãos estavam muito apreensivos e temerosos. Mesmo mantendo o pato preso, às vezes ele poderia ser solto e sairia mais agressivo.

E é ai, que minha consciência dói. Eu estava passando por problemas seríssimos, correndo risco de perder o emprego por abandono, com quatro crianças, cuidando delas, praticamente sozinha, com problemas de saúde devido ao acúmulo de desafios enfrentados. Fomos criados convivendo com muitos animais, meus pais e familiares sempre os trataram bem. Mas não tínhamos esse entendimento, essa consciência que tenho hoje: os animais são seres sencientes, sentem dor, medo, tristeza, ciúmes, raiva e têm direito à vida tanto quanto nós humanos. E o que eu fiz? Hoje eu percebo que poderia tê-lo doado para alguém que tivesse um sítio. Para alguém que o deixaria viver até que tivesse morte natural. Naquele momento meus problemas pessoais, profissionais e familiares conturbavam minha mente e não havia espaço para nenhum outro sentimento ou reflexão a não ser de minha própria sobrevivência. Eu deixei minha mãe matá-lo para comê-lo.

É assim que agimos, com aqueles quem julgamos inferiores a nós, aprisionamos, matamos, comemos e esquecemos, menosprezando todos os sentimentos que eles nos dedicaram, principalmente o sentimento de fidelidade. Quem de nós não teve um animal de estimação, como um porquinho, um boizinho, um cabritinho, um cãozinho e um gatinho e o abandonou, ou o comeu?

Cada vez avanço mais no entendimento de que todos “nós seres humanos, estamos na natureza para auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar e quem maltrata um animal é alguém que ainda não aprendeu a amar”, nas palavras de Chico Xavier. Cada vez mais sofro com o que não impedi que acontecesse. Agora sou vegetariana. Estou aprendendo que “vida é vida, seja de um gato, cão ou homem. Não há diferença entre um cão e um homem nesse aspecto. A idéia da diferença é uma criação humana para seu próprio proveito” segundo Sri Aurobindo.

Patos felizes: Como são e do que precisam...
“Os patos são animais muito sociáveis e sentem-se muito bem em grupo. Passam os dias juntos procurando comida nas ervas ou na parte mais rasa da água, e dormem em grupo durante a noite. São animais meticulosamente limpos que mantêm os seus ninhos sem lixos nem restos, e gostam de acariciar as penas e exibir as suas lindas plumagens aos potenciais companheiros. Na natureza, a sua esperança média de vida é de 10 anos. São nadadores e voadores excelentes e são capazes de fazer centenas de quilômetros durante as migrações. Tal como os gansos, os patos também voam em “V”. Os patos usam vocalizações e linguagem corporal para comunicarem entre si. Investigadores da Universidade de Middlesex, no Reino Unido, descobriram que os patos têm pronúncias regionais, à semelhança dos humanos. Segundo este estudo, os patos da cidade têm vozes mais altas, enquanto que os do campo têm vozes mais suaves e calmas.” (www.gatoverde.com.br)
Graça Leal

PÁSSAROS LIVRES

Meu pai era interno da antiga Escola Agrícola de Barbacena. Lá chegou aos quatorze anos, lá estudou e lá trabalhou até sua aposentadoria. Ele era um grande amante da natureza, lidava sempre com plantas e animais. Ele era um ambientalista quando esta palavra ainda era desconhecida.

Comprou uma grande área, lá construiu nossa casa. A área era cascalho puro, mas ele disciplinadamente, metodicamente adubava. 

Como? Naquelas décadas de 30, 40, 50, no interior, onde muito transporte era feito por cavalos e havia muito esterco pelos pastos e ruas, os meninos o catavam e vendiam em latas de 20 litros. Era uma troca prazerosa para meu pai, que adubava a horta, e para a molecada que ganhava um troco e que já tinha o freguês certo. Essa troca aconteceu enquanto havia facilidade de encontrar o esterco.

E assim, nesta grande área, papai plantava todo tipo de vegetação. Tanto árvores frutíferas quanto ornamentais. Ali então, vinham aves e animais de várias espécies atrás das frutas. Meus pais tinham prazer em observar tais visitantes e aprendíamos com eles a respeitá-los. Gaiolas, nem pensar! Aprendemos a ver os animais cantando e voando livres.

Como toda criança, adorávamos ir para a casa de nossos avós maternos. Lá se encontravam todos os primos, que eram muitos. 

Meu avô tirava o seu sustento de um botequim onde comercializava doces, salgados, verduras e frutas. As verduras eram compradas da colônia dos imigrantes italianos que, fugindo da Primeira Grande Guerra, se estabeleceram em Barbacena.

Os salgados e doces ficavam numa enorme vitrine. E cada primo tem uma história para contar dos doces e salgados que surrupiávamos de nosso avô. Tinha uma geléia de mocotó em pedaços e uma empadinha que eram nossa tentação! Quando meu avô se afastava para tomar o café ou ir ao banheiro, enquanto um primo vigiava, o outro abria aquela enorme porta da vitrine, com muito cuidado, para que não rangesse. E quando conseguíamos, íamos comer juntos, rindo muito da travessura.

Dentro da enorme casa, cheia de cômodos, havia um com gaiolas penduradas do chão ao teto com dezenas de pássaros de grande valor, os quais eram comercializados por meu avô. Meus irmãos, um dia, entrando naquele cômodo, e tendo em mente os ensinamentos de meu pai, foram abrindo todas as portas das gaiolas e libertando os passarinhos. Quando meu avô viu, ficou irado. Meus irmãos voltaram correndo para casa. Quando minha mãe soube do fato, deu uma boa surra nos dois.

Recordo-me deles, agachados num canto e, após chorarem muito pela surra, me contaram rindo:
- Precisa ver a alegria deles, saindo em revoada pela janela, cantando, livres.

Hoje, lembrando-me daquela atitude, imagino como seria bom ver pessoas com o mesmo prazer e coragem de meus irmãos de abrirem as gaiolas de suas casas, dos zoológicos, dos circos, dos laboratórios pelo mundo afora e se comprazerem com a liberdade dos animais.

Graça Leal

NOSSO CACHORRO ARU


NOSSO CÃO ARU, MEUS 3 FILHOS MENORES: CÉSAR AUGUSTO, CÍCERO E LÍVIA, O MAIS ALTO ATRÁS O  CUIDADOR DO BELO  COLLIE ARU-OURO PRETO/MG-1985

Quando eu tive meu quarto filho em 1985, eu ganhei um filhote. Era um lindo cachorro da raça Collie, preto, branco e bege, com uns dois meses de idade. Sua mãe viera do R. G. do Sul, por isso lhe deram o nome do vento que sopra no sul: Aru. Cuidava dele com os mesmos cuidados maternos que dispensava a minha filhinha recém-nascida. Ele corria e brincava alegre com as outras três crianças. E crescia e se tornava um belo cão, com longos pelos.

A minha filha recém-nascida, porém, teve problemas de rejeição do leite materno e iniciou-se um período muito difícil, pois quando eu a amamentava, ela vomitava tudo e foi perdendo peso. Morando longe dos familiares, quase sozinha porque meu marido, militar, tinha muitos compromissos, eu tinha que cuidar dos quatro filhos, numa cidade onde tudo era muito difícil. Inexperiente e receosa pelo terrorismo que os órgãos sanitários nos passam de que os animais domésticos são transmissores de muitas zoonoses, me afastei de Aru.
 
Uma manhã, o encontramos prostrado, cabisbaixo, lá no seu canto. Liguei pro veterinário, passei os sintomas, ele disse ser desidratação e recomendou que eu desse os mesmos remédios que se dá às crianças: soro caseiro, gelatina líquida, etc. Preparei tudo, mas não me aproximava dele. Deixei que meu marido o cuidasse. E assim, deitado, ele ficou por vários dias até que um dia, desci ao terreiro onde ele permanecia deitado, tomando sol. Agachei-me próxima a ele, para catar algo no chão. Impetuosamente ele me lambeu toda, me abraçou, eu o acariciei e ele levantou-se com toda a energia e subia e descia as escadas na maior alegria. Aí eu percebi que ele não tinha enfermidade, ele sentia era a minha falta, falta do meu afago, de minha proximidade. Então, procurei dar-lhe mais atenção. Como ele já estava grande, forte, com longos pelos, contratei um jovem para passear com ele, dar-lhe banho e lhe escovar.

Diante de tantas dificuldades que enfrentava, naquela localidade de poucos recursos, não havia outra alternativa, a não ser retornar a minha cidade. Era ano de 1986, Plano Cruzado, faltava leite nas prateleiras, havia dificuldade de alugar imóveis devido aos altos preços. Aluguei um apartamento no centro da cidade, local de fácil acesso para que meus familiares me auxiliassem no meu dia-a-dia. 
Nesse apartamento, porém, Aru ficava confinado num pequeno espaço. Já adulto, nesse espaço reduzido, sem que eu pudesse levá-lo para passear, levei-o para casa de minha mãe, onde havia uma área maior. Coloquei-o no carro e lá o deixei.

Os dias se passavam. Quando íamos ver minha mãe, também o encontrávamos. Meu pai, já idoso, teve uma isquemia, e estava em convalescência quando minha mãe me deu notícia de que Aru havia sumido. Naqueles dias frios de Barbacena, com a garoa encobrindo toda a cidade, meu pai, pondo em risco a própria saúde, saiu à sua procura. Então, numa madrugada gelada, ouvi batidas fortes na porta e senti muito medo porque estava só, com minhas quatro crianças e morando numa rua de muito movimento. Fiquei escutando. Então ouvi algo arranhando a porta. Aí compreendi tudo. Desci os dez degraus que me levavam à porta, abri e era ele mesmo: Aru. Ele subia e descia as escadas ganindo de alegria e foi cheirar as crianças. Mas, não havia como ele ficar ali. Levei-o novamente para a casa de meus pais.

Certo dia, César e Cícero, meus dois filhos mais velhos, em casa de mamãe, resolveram dar banho em Aru, debaixo do chuveiro. Minha mãe, lá no tanque, lavava roupas, enquanto ouvia notícias, pelo rádio. Os dois puseram a corrente no pescoço de Aru e a prenderam na torneira do chuveiro. Só que o chuveiro estava dando choque há dias, então começou a dar choques no cão, que começou a se debater. Meu filho, descalço, tentou tirar a corrente, mas ficou agarrado. Começaram a gritar, pedindo ajuda. Minha mãe, ouvindo rádio, lá fora, achou que estavam se divertindo e fazendo algazarra. Desesperado, o outro filho, de chinelos, deu um puxão no que estava descalço. E nesse desespero, Aru já agonizava, e morreu eletrocutado. Foi uma tristeza geral. E constatamos que ele morreu, no lugar que poderia ser de uma criança. Lá estava o perigo, e a morte do animal foi o alerta
 
Após toda essa experiência, com Aru, e sua morte, nenhum de nós nunca mais foi o mesmo. Ficamos todos desolados e traumatizados. Todos os cuidados e afeto que lhe demos ainda foram pouco em comparação à sua fidelidade e amor para conosco. “Os animais são os irmãos mais novos dos homens. Eles também, como nós, vêm de longe, através de lutas incessantes e redentoras, e são, como nós, candidatos a uma posição brilhante na Espiritualidade”, nas palavras de Emmanuel.

Após leitura e conhecimento mais profundo sobre os animais, sua senciência (sentem como nós, alegria, amor, ciúme, dor, tristeza e outros sentimentos), refletimos que temos sim que tratá-los como irmãos menores, ajudando-os na sua caminhada evolutiva. Há muito, ainda, a conhecer sobre os animais não-humanos em geral, mas na sua arrogância os humanos só os vêm como “produtos” a serem explorados. Convivendo com os animais percebo o quanto eles têm a nos ensinar.
Graça Leal